Professora de Direito do Petróleo na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Também é sócia no escritório Doria, Jacobina, Rosado e Gondinho Advogados Associados.
Por Gisele de Oliveira
A Câmara dos Deputados aprovou na semana passada o projeto que define o sistema de partilha dos royalties do petróleo na camada pré-sal. No entanto, uma emenda, incluída pelo deputado federal Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), está causando polêmica em todo o país. A emenda prevê a distribuição dos royalties entre todos os estados e municípios brasileiros. E não é só. A medida também inclui os royalties provenientes de campos petrolíferos licitados e até aqueles já em operação.
Para a professora de Direito do Petróleo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Marilda Rosado, o impacto da emenda é negativo, pois traz uma insegurança jurídica para o setor do petróleo. "Estamos falando de contratos já assinados e isso reflete na confiança", observa. Além disso, a professora, que também é sócia do escritório Doria, Jacobina, Rosado e Gondinho Advogados Associados, diz que a questão pode ser questionada do ponto de vista constitucional. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
IGDNews - Qual o impacto que a emenda Ibsen Pinheiro traz para o setor do petróleo?
Marilda Rosado - Existe uma observação inicial à aprovação dessa emenda pela Câmara dos Deputados que é a insegurança jurídica neste setor. Não que a emenda não traga outras implicações, mas de, uma forma geral, estabelece uma preocupação muito grande no setor do petróleo com a aprovação desta emenda.
IGDNews - Por que a emenda traz insegurança jurídica?
Marilda Rosado - Estamos traçando um divisor de águas no setor do petróleo, onde temos de um lado contratos já assinados de áreas já licitadas e do outro estados hospedeiros, ou produtores, com contratos ainda não assinados. Por mais que estejamos falando de distribuição de royalties e os contratos não envolvem essa questão, o fato é que a emenda prevê esta distribuição para áreas já licitadas e até em operação. Só este fato traz um impacto muito grande, não só imediato, mas de médio prazo para o investidor.
IGDNews - Qual a percepção que fica para o mercado?
Marilda Rosado - Traz uma percepção negativa para os investidores. Isso abala o risco Brasil, pois para os investidores, a questão é um risco de médio prazo. Se são introduzidas mudanças que abalam os contratos atuais, reflete-se em insegurança jurídica. Por isso, hoje existe um novo ramo no Direito, chamado de Direito Internacional, que estuda a tradição de um país, que consagra essa confiança e o respeito aos contratos. Faz parte do nosso ordenamento jurídico essa proteção à confiança. Se isso fica abalado, o arcabouço jurídico também perde em segurança e confiança.
IGDNews - Isso pode afastar os investidores do país?
Marilda Rosado - Não acredito que a questão vai oferecer um afastamento automático. Agora, a emenda pode causar uma preocupação muito grande entre os investidores. Estamos falando de mudanças em contratos já existentes e, mais uma vez, digo que isso traz insegurança jurídica. O investidor fica com a dúvida do que virá a seguir. É o abalo da confiança no ordenamento jurídico do setor.
IGDNews - Do ponto de vista Constitucional, a emenda se justifica?
Marilda Rosado - Ela [emenda] pode ser questionada. Se pararmos para olhar a base Constitucional, os royalties são uma compensação financeira aos estados e municípios produtores de petróleo pelos impactos que a atividade traz à região. E não são apenas impactos positivos, mas existem muito negativos também. Vejamos o município de Macaé (Rio de Janeiro), tivemos transformações para o bem, mas para o mal também como, por exemplo, o aumento da favelização e da criminalidade. Além dos impactos ambientais e da perda do recurso porque o petróleo é um recurso não renovado. O argumento de trazer isonomia ao país acaba prejudicando os estados e municípios produtores. Porque esquecem de observar todo o ordenamento do setor de petróleo.
IGDNews - De que forma o discurso é prejudicial?
Marilda Rosado - Os defensores da isonomia na distribuição dos royalties analisam só uma ponta da questão, a de que existe uma distorção na outra ponta. Mas não veem que o sistema tributário pune o estado produtor na questão do recolhimento do ICMS. Com essa emenda, os estados produtores passam a ser punidos duplamente. São argumentos generalistas e que precisam de maior aprofundamento sobre o setor do petróleo.
IGDNews - A senhora acredita que possa ser revertida a questão?
Marilda Rosado - Acredito que sim. A Lei do Gás, por exemplo, levou quatros anos em discussões até chegar ao que temos hoje. Vale lembrar que os royalties do petróleo são apenas uma parte das questões que precisam ser debatidas. São mudanças radicais que estão fazendo no setor e que não podem ser discutidas com essa pressa toda. Só esta emenda já revela a magnitude do que está em jogo no nosso país.
Cleucio Santos Nunes
Consultor jurídico do Ministério das CidadesConsuelo Yoshida
Desembargadora Federal do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. É mestre e doutora pela PUC/SP, professora de Direito Ambiental e coordenadora do Curso de Especialização em Direito Ambiental e Gestão Estratégica da Sustentabilidade da PUC/SP).Emiliano Ribeiro de Souza
Procurador-geral da Agência Nacional de Águas (ANA).Solange David
Gerente Jurídica da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).Carlos Guedes
Coordenador do Programa Terra Legal Amazônia.Gustavo Coelho
Geógrafo e cientista social, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp e mestre em Geografia pela USP. Professor Doutor da PUC/SP e chefe de divisão da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE). É colaborador do Instituto Geodireito.Gilberto Bercovici
Professor de Direito Econômico e Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e do Programa de Pós-Graduação em Direito Político e Econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Também é consultor no escritório de advocacia Oliveira Matos Advogados.José Oswaldo de Araújo Filho
Professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB).Paulino Motter
Assistente da diretoria-geral brasileira de Itaipu Binacional e membro da Comissão de Implantação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).Cecília Maria Helm
Antropóloga especialista em Etnologia Indígena. É professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Paraná (UFPR).Maurício Ehrilch
Professor do Laboratório de Geotecnia da Coordenadoria de Projetos de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).Alex Sandro Feil
Superintendente de Mediação Administrativa Setorial da Aneel. Possui os títulos de Especialista em Gestão Técnica de Concessionárias de Energia Elétrica e de Mestre em Engenharia Hidráulica, ambos pela UFPR. Atuou no segmento de comercialização de energia elétrica entre 1998 e 2002. De 2002 a 2005, atuou como advogado e consultor nos segmentos de geração e comercialização de energia elétrica e gestão de recursos hídricos.Adriano Pires
Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).Decio Michellis Junior
Diretor de energia do Departamento de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e secretário executivo do Comitê de Meio Ambiente da Associação Brasileira de Concessionárias de Energia Elétrica (ABCE).Stefan David
Consultor na área de meio ambiental. Também é diretor comercial na MGM Innova - empresa especializada no desenvolvimento de projetos de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL). Engenheiro mecânico, com MBA em Gestão Ambiental pela Proenco - Ministério de Ciência e Tecnologia, já assumiu operações na área ambiental em diversas empresas privadas como Mercedes-Benz, Pirelli e Grupo Pão de Açúcar.José Gutman
Superintendente de Controle das Participações Governamentais da Agência Nacional de Petróleo (ANP).Alfredo Tranjan Filho
Presidente das Indústrias Nucleares do Brasil (INB).Vidal Serrano Jr.
Presidente do Conselho Diretor do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Também é Doutor em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).Renato Amary
Deputado federal Renato Amary (PSDB-SP).Luiz Antonio Ugeda Sanches
Diretor Executivo do IGD, Mestre em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), mestrando em Geografia pela PUC/SP e sócio do Ugeda Sanches Advogados Associados.Carlos Henrique Mariz
Assistente Sênior da Presidência da Eletronuclear no Nordeste.Raquel Rolnik
Urbanista. Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). Também é relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada.Andrea Vulcanis
Procuradora-geral do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e de Recursos Renováveis (Ibama).Vilson Christofari
Diretor Geração Oeste da Cesp. É professor de MBA na Fundação Getúlio Vargas e de diversos cursos na área de energia elétrica. Atuou como diretor adjunto da antiga DNAEE (1991-1992) e também ocupou cargos de diretoria na Eletronorte, CPFL, Cesp e no Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores S.A.Marcio Pina Marques de Sousa
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Procurador-geral do Estado do Paraná e professor titular de Direito Socioambiental e do Programa de Mestrado e Doutorado da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).Guilherme Sandoval Góes
Coordenador da Divisão de Geopolítica e de Relações Internacionais da Escola Superior de Guerra. É professor emérito da Escola de Comando do Estado-Maior do Exército (ECEME) e de Direito Constitucional da Estácio de Sá (RJ). Também é mestre e doutorando em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).David Waltenberg
Sócio-fundador do escritório Advocacia Waltenberg. Já foi coordenador jurídico do antigo Departamento Nacional de Energia Elétrica (DNAEE), assessor institucional da Secretaria de Energia do Estado de São Paulo, superintendente jurídico da Eletropaulo e atuou como consultor na revisão do modelo institucional do RESEB e do governo Lula.Maria Garcia
Professora de Graduação e Pós-Graduação de Direito Constitucional e Biodireito da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).Nivalde de Castro
Coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ).