Desembargadora Federal do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. É mestre e doutora pela PUC/SP, professora de Direito Ambiental e coordenadora do Curso de Especialização em Direito Ambiental e Gestão Estratégica da Sustentabilidade da PUC/SP).
Por Gisele de Oliveira
Enquanto o Brasil avança no desenvolvimento econômico, a questão ambiental vai ficando cada vez mais em evidência. Diante da necessidade de atender às demandas de infraestrutura e da sociedade, o uso sustentável dos recursos naturais do país se torna fundamental para os governos, seja federal, estadual ou municipal, e investidores.
Para a desembargadora do Tribunal Regional Federal, Consuelo Yoshida, a visão sobre o tema é otimista, embora ainda existam questões complexas e relevantes que merecem atenção, como o desmatamento ilegal e queimadas, por exemplo. Segundo ela, que também é professora do Direito Ambiental da PUC/SP, o país continua no caminho de uma legislação avançada e cita como exemplos a participação atuante do Ministério Público, das ONGs e do mercado financeiro neste sentido.
IGDNews - Qual a avaliação da senhora sobre a questão ambiental no Brasil?
Consuelo Yoshida - Vou pontuar, inicialmente, questões ambientais relevantes e complexas que merecem atenção quanto aos seus desdobramentos. Em tempos de mudanças climáticas, um dos nossos maiores desafios é o combate ao desmatamento ilegal e às queimadas. Os programas federais adotados na Amazônia já surtiram efeitos na redução do ritmo do desmatamento e estão sendo implementados no Cerrado, onde a tendência é a de aumento desse ritmo. Também é preocupante a questão energética e o meio ambiente. Nossa matriz energética principal é a hidroenergia, e apesar do crescente comprometimento do setor elétrico com a sustentabilidade ambiental e social, acompanhamos os embates em torno do licenciamento ambiental de grandes hidrelétricas na Região Norte e a proliferação preocupante de termelétricas, facilitadas por um sistema simplificado de licenciamento. Quanto ao agronegócio, em plena expansão, os efeitos perversos são a implantação da monocultura - como a soja, cana-de-açúcar, eucaliptos, por exemplo -, com perda significativa da biodiversidade, e a destruição, redução e não recuperação das áreas de reserva legal e das Áreas de Preservação Permanente (APP's) já degradadas, na forma exigida pelo Código Florestal. Nas regiões Sul e Sudeste, o problema do passivo ambiental das indústrias é uma preocupação atual. Todavia, os avanços tecnológicos, o aprimoramento do licenciamento ambiental, a disseminação do monitoramento, das auditorias ambientais e da renovação da licença de operação contribuirão para evitar a formação de novos passivos ambientais pelas indústrias. Por tudo isso, não temos uma visão pessimista sobre a questão ambiental no Brasil, os embates sempre vão existir e deverão se ajustar em patamares adequados que conciliem a sustentabilidade ambiental, econômica e social.
IGDNews - Quais são os principais desafios do Brasil na questão ambiental?
Consuelo Yoshida - Além das questões já faladas anteriormente, as questões institucionais e federativas constituem outro bloco de desafios a serem enfrentados. O movimento para flexibilizar a legislação florestal é grande atualmente e os riscos de afrontar as leis naturais devem ser levados em alta conta, pois a natureza já tem reagido de forma violenta. Os estados não podem se valer da competência legislativa concorrente para flexibilizar indevidamente, sem observar critérios técnicos, a legislação e demais instrumentos de proteção ambiental a pretexto de atender as peculiaridades regionais. A atuação integrada dos diferentes atores - Ministério Público, Administração Ambiental, empreendedores, sociedade civil organizada - e coordenada dos órgãos do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama) nos níveis federal, estadual e municipal, além da atenção com a municipalização do licenciamento ambiental, são questões atuais e complexas que demandam enfrentamento adequado. Por último, esperamos que a uniformização dos discursos em torno da sustentabilidade, que já é partilhada por muitos, seja acompanhada de práticas efetivas, de preferência estimuladas por instrumentos econômicos, como ICMS ecológico, benefícios tributários, subsídios, por exemplo, para que haja adesão crescente à causa ambiental e efetividade nos resultados.
IGDNews - Quais as principais conquistas nesta área do ponto de vista jurídico?
Consuelo Yoshida - Continuamos a produzir uma legislação ambiental avançada desde a Política Nacional do Meio Ambiente, em 1981, e as conquistas obtidas no plano legislativo não podem sofrer retrocesso. Além da presença atuante do Ministério Público e das ONGs (Organizações Não-Governamentais) para dar efetividade à legislação ambiental, temos, atualmente, as pressões do mercado e de investidores para impulsionar as grandes empresas a incorporarem modelos de gestão ambiental e práticas sustentáveis. Um exemplo recente é o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que o Ministério Público Federal celebrou com grandes frigoríficos e redes de supermercado no Pará, que assumiram compromissos de não comercializarem produtos de fornecedores que desrespeitam o meio ambiente, as condições de trabalho, envolvimento com questões fundiárias, indígenas. É um marco representativo de uma nova estratégia de atuação, que estimula a mobilização em cadeia, com muito maior eficiência e efetividade.
IGDNews - No final do ano passado, tivemos a realização da COP-15 que acabou não tendo o resultado esperado. Como a senhora avalia o resultado desta reunião?
Consuelo Yoshida - A questão mais polêmica e delicada em torno da qual não se conseguiu o consenso necessário foi o estabelecimento de metas obrigatórias de redução dos gases de efeito estufa para o segundo período de vigência do Protocolo de Quioto. Com tantos interesses em jogo e interesses contrapostos dos blocos de países reunidos na COP-15, já se antevia a dificuldade de consenso. A postura da União Européia contrasta nitidamente com a norte-americana. Os países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) têm preocupação de manter elevados os índices de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). O que se espera é que cada país ou bloco econômico implemente as propostas apresentadas na COP-15. Felizmente, independentemente das posturas assumidas pelos governos, avança a passos largos a responsabilidade socioambiental corporativa, impulsionada e pressionada por fatores múltiplos como disse anteriormente. Efetivamente, não podemos depender das decisões e das iniciativas governamentais no que se refere ao combate ao aquecimento global e às mudanças do clima. A iniciativa privada e a sociedade civil organizada podem alavancar as mudanças de padrões de produção e consumo e promover escolhas por matrizes energéticas renováveis e limpas.
IGDNews - O Brasil está preparado para a realidade sustentável?
Consuelo Yoshida - Temos que diferenciar as situações e as realidades no Brasil. O setor público é o que apresenta mais dificuldades para se ajustar à ideia da sustentabilidade. Grande parte das obras de infraestrutura e dos serviços públicos essenciais são concebidos, implantados e operados ao arrepio da legislação ambiental, acobertados pelo autolicenciamento ambiental, por mecanismos de suspensão de liminares na Justiça, ausência de vontade política, deficiência orçamentária, ineficiência administrativa. Diferentemente, as grandes corporações inseridas no contexto da globalização econômica seguem a tendência internacional de adotar padrões de sustentabilidade como demanda do mercado e de investidores. Por isso, se ajustam com agilidade e eficiência. Bem, outra questão é a realidade das médias e, principalmente, das pequenas empresas que não têm preocupação, interesse ou condições econômicas e tecnológicas de assumirem compromissos de gestão e eficiência ambiental. Já os consumidores conscientes da questão ambiental e com maior poder aquisitivo são um importante elo da cadeia da sustentabilidade. Eles podem e estão alavancando a demanda e o mercado por produtos e serviços sustentáveis.
IGDNews - A demanda por energia está crescendo no país. Como aliar essa necessidade com o meio ambiente?
Consuelo Yoshida - Felizmente, temos a hidroenergia como a principal matriz energética. Porém, o foco principal não deve ser as grandes hidrelétricas, pelos impactos significativos que causam no entorno e que dão origem aos embates no licenciamento ambiental. O Brasil é detentor da melhor tecnologia de produção de etanol e tem várias opções de biodiesel. A produção sustentável já está delineada na política de agroenergia. Basta observar as diretrizes fixadas. Faltam incentivos e subsídios para os projetos de energia eólica e solar. Há regiões brasileiras com condições climáticas propícias à produção e ao aproveitamento destas matrizes energéticas. Enfim, o Brasil é privilegiado em termos de disponibilidade de energia limpa e renovável e tem todas as condições de atender à demanda crescente de energia, sem "sujar" a matriz energética com termelétricas e combustíveis fósseis.
Cleucio Santos Nunes
Consultor jurídico do Ministério das CidadesMarilda Rosado
Professora de Direito do Petróleo na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Também é sócia no escritório Doria, Jacobina, Rosado e Gondinho Advogados Associados.Emiliano Ribeiro de Souza
Procurador-geral da Agência Nacional de Águas (ANA).Solange David
Gerente Jurídica da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).Carlos Guedes
Coordenador do Programa Terra Legal Amazônia.Gustavo Coelho
Geógrafo e cientista social, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp e mestre em Geografia pela USP. Professor Doutor da PUC/SP e chefe de divisão da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE). É colaborador do Instituto Geodireito.Gilberto Bercovici
Professor de Direito Econômico e Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e do Programa de Pós-Graduação em Direito Político e Econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Também é consultor no escritório de advocacia Oliveira Matos Advogados.José Oswaldo de Araújo Filho
Professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB).Paulino Motter
Assistente da diretoria-geral brasileira de Itaipu Binacional e membro da Comissão de Implantação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).Cecília Maria Helm
Antropóloga especialista em Etnologia Indígena. É professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Paraná (UFPR).Maurício Ehrilch
Professor do Laboratório de Geotecnia da Coordenadoria de Projetos de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).Alex Sandro Feil
Superintendente de Mediação Administrativa Setorial da Aneel. Possui os títulos de Especialista em Gestão Técnica de Concessionárias de Energia Elétrica e de Mestre em Engenharia Hidráulica, ambos pela UFPR. Atuou no segmento de comercialização de energia elétrica entre 1998 e 2002. De 2002 a 2005, atuou como advogado e consultor nos segmentos de geração e comercialização de energia elétrica e gestão de recursos hídricos.Adriano Pires
Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).Decio Michellis Junior
Diretor de energia do Departamento de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e secretário executivo do Comitê de Meio Ambiente da Associação Brasileira de Concessionárias de Energia Elétrica (ABCE).Stefan David
Consultor na área de meio ambiental. Também é diretor comercial na MGM Innova - empresa especializada no desenvolvimento de projetos de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL). Engenheiro mecânico, com MBA em Gestão Ambiental pela Proenco - Ministério de Ciência e Tecnologia, já assumiu operações na área ambiental em diversas empresas privadas como Mercedes-Benz, Pirelli e Grupo Pão de Açúcar.José Gutman
Superintendente de Controle das Participações Governamentais da Agência Nacional de Petróleo (ANP).Alfredo Tranjan Filho
Presidente das Indústrias Nucleares do Brasil (INB).Vidal Serrano Jr.
Presidente do Conselho Diretor do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Também é Doutor em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).Renato Amary
Deputado federal Renato Amary (PSDB-SP).Luiz Antonio Ugeda Sanches
Diretor Executivo do IGD, Mestre em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), mestrando em Geografia pela PUC/SP e sócio do Ugeda Sanches Advogados Associados.Carlos Henrique Mariz
Assistente Sênior da Presidência da Eletronuclear no Nordeste.Raquel Rolnik
Urbanista. Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). Também é relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada.Andrea Vulcanis
Procuradora-geral do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e de Recursos Renováveis (Ibama).Vilson Christofari
Diretor Geração Oeste da Cesp. É professor de MBA na Fundação Getúlio Vargas e de diversos cursos na área de energia elétrica. Atuou como diretor adjunto da antiga DNAEE (1991-1992) e também ocupou cargos de diretoria na Eletronorte, CPFL, Cesp e no Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores S.A.Marcio Pina Marques de Sousa
Procurador-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).Carlos Frederico Marés de Souza Filho
Procurador-geral do Estado do Paraná e professor titular de Direito Socioambiental e do Programa de Mestrado e Doutorado da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).Guilherme Sandoval Góes
Coordenador da Divisão de Geopolítica e de Relações Internacionais da Escola Superior de Guerra. É professor emérito da Escola de Comando do Estado-Maior do Exército (ECEME) e de Direito Constitucional da Estácio de Sá (RJ). Também é mestre e doutorando em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).David Waltenberg
Sócio-fundador do escritório Advocacia Waltenberg. Já foi coordenador jurídico do antigo Departamento Nacional de Energia Elétrica (DNAEE), assessor institucional da Secretaria de Energia do Estado de São Paulo, superintendente jurídico da Eletropaulo e atuou como consultor na revisão do modelo institucional do RESEB e do governo Lula.Maria Garcia
Professora de Graduação e Pós-Graduação de Direito Constitucional e Biodireito da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).Nivalde de Castro
Coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ).