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Opinião: A geografia tem sempre razão. O turismo em Portugal

19 Mar 2017



Rui Tavares Guedes*


Só protegendo a autenticidade é que poderemos continuar a crescer no turismo

Vivemos tempos instáveis, é verdade. Tempos em que se torna cada vez mais difícil prever o que vai ocorrer a seguir, em que se avolumam as interrogações e, infelizmente também, as inquietações. Mas é precisamente nesses tempos que mais devemos olhar para o espaço físico em que habitamos, para aquilo que, de facto, parece mais imutável, mesmo quando se avoluma a instabilidade e a insegurança. Este é, talvez, o tempo de voltar a olhar mais para a geografia – aquela realidade que nos habituámos a encarar de frente nos mapas expostos nas salas de aula e que agora nos acompanha, a todo o momento, mesmo sem nos apercebermos, nos ecrãs dos telemóveis.

Mesmo que nem sempre dêmos conta disso, por acharmos que está tudo globalizado e normalizado, a geografia continua a ser um dos fatores mais determinantes da História mundial. Muitas das atuais clivagens europeias, por exemplo, são mais compreensíveis se olharmos para as cordilheiras e os rios que atravessam o continente, do que se nos fixarmos apenas nas decisões políticas do imediato. É na geografia que percebemos, de facto, as fraturas inultrapassáveis, as grandes tensões que permanecem ao longo de séculos – agora perfeitamente ilustradas pelo Brexit britânico ou na atual política de confronto entre a Turquia e a Europa. Mas é também na geografia que temos que procurar muitas das oportunidades de crescimento dos países.

A História de Portugal é indissociável da sua posição geográfica, todos o sabemos, desde que aproveitámos a porta de saída do Atlântico para navegar pelo mundo. Hoje, a nossa geografia, só aparentemente periférica, constitui uma espécie de proteção – estamos suficientemente perto da Europa e do Norte de África, mas prudentemente afastados dos cenários mais conflituosos que se vão desenhando.

Essa posição geográfica é também hoje decisiva para o grande crescimento do turismo no nosso país – o único setor económico em que os números crescem a dois dígitos, quase ao mesmo ritmo com que nascem as polémicas sobre a descaracterização das cidades.

A verdade é que os indicadores são impressionantes. Em 2016, contas feitas, Portugal voltou a bater recordes no turismo: em visitantes estrangeiros, no número de dormidas, nas receitas para a economia e até na criação de emprego. Em 2017, ao que tudo indica, todos estes indicadores deverão ser ampliados, tendo em conta o otimismo reinante no setor face aos bons resultados obtidos nos dois primeiros meses deste ano. É neste cenário, de quase euforia, que o Governo vai apresentar, esta semana, a sua Estratégia de Turismo para os próximos dez anos. É um plano que esteve em consulta pública ao longo dos últimos meses e que tem como preocupações principais, entre outras, a redução das assimetrias regionais, o combate à sazonalidade e o crescimento do setor, com consequências positivas no tecido económico e no emprego.

Sem conhecer ainda o documento final, espero, isso sim, que a estratégia não se esqueça da geografia. Em particular da defesa daquilo que é hoje a principal mais-valia nacional para a captação de turistas: o território e as pessoas.

Só protegendo a autenticidade é que poderemos continuar a crescer no turismo. Já chega de projetos megalómanos que se tornaram ruinosos ou de campanhas faraónicas com nomes estrangeiros sem qualquer significado prático. E mais do que uma oportunidade, o turismo tem de passar a ser encarado como estrutural para a economia portuguesa. E assente em profissionais cada vez mais qualificados e preparados. Se voltarmos a insistir no discurso da mão de obra barata, iremos perder-nos no caminho. Até por causa da geografia.

* Diretor Adjunto da revista Visão


Fonte: Editorial da VISÃO 1254, de 16 de março de 2017



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