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Opinião: Cidades inteligentes devem ter soberania tecnológica

07 Jan 2018



Ter infra-estrutura de redes própria e usar software aberto sempre que possível são algumas das linhas de acção da governação de TI em Barcelona. Objectivo: ser uma democracia digital, uma Internet de cidadãos, com as pessoas em primeiro lugar, afirma Francesca Bria, CTO da cidade.

Francesca Bria, CTO e Digital Innovation Officer da cidade de Barcelona

Transformar um meio urbano numa cidade inteligente exige a definição de estratégias concretas. Após a definição dos objectivos importa passar à acção. Francesca Bria, CTO e “digital innovation officer” da cidade de Barcelona, já identificou, juntamente com os restantes responsáveis de topo da autarquia, quais os desafios da urbe e nenhum é tecnológico.

O grande desafio da transformação digital passa sempre por uma “mudança organizacional, cultural e de ‘mindset’”. Após a definição da “estratégia política” e de identificados os problemas que se pretendem resolver, devem então colocar-se as questões da tecnologia.

Quando chegou a Barcelona, há cerca de dois anos, o ponto de partida que encontrou não era o ideal, mas tinha vantagens, afinal, a cidade teve, durante mais de uma dezena de anos uma agenda focada na tecnologia, pelo que existem 500 quilómetros de fibra [óptica] distribuída por toda a cidade, sobre os quais existe uma rede de sensores que recolhe três milhões de pontos de dados diariamente.

Esta rede de sensores, a “Sentilo”, é um middleware construído com normas abertas  e software opensource que interliga os sensores da cidade, com as aplicações que os monitorizam e controlam. Esta rede de sensores ubíqua permite a recolha de dados que ajudam a gestão de parques, a mobilidade, a gestão de lixos e de água ou eficiência energética da cidade.

Computerworld – Sinteticamente, quais são os objectivos da cidade “inteligente” de Barcelona?

Francesca Bria – A cidade de Barcelona quer ter habitação a preços acessíveis, utilizar mais energias renováveis, apostar na mobilidade sustentável, reduzir as emissões de CO2, criar mais espaços verdes públicos e ter uma democracia mais participativa. Estes são actualmente os principais objectivos da cidade.

CW – O que encontrou quando tomou as rédeas da política digital da cidade há cerca de dois anos?

FB – Quando fui convidada pela presidente da Câmara para ocupar o cargo de CTO e digital innovation officer, encontrei uma cidade inteligente focada numa abordagem, seguida durante mais de uma dezena de anos, centrada na tecnologia. O foco estava na tecnologia e não nos cidadãos

Acredito que no entanto que se deve focar a abordagem, em primeiro lugar, nas necessidades dos cidadãos e nos desafios urbanos da cidade em primeiro lugar para depois procurar a tecnologia necessária e a melhor forma de a governar.

Encontrei também vários “dashboards”. Quando cheguei à cidade fiz uma auditoria tecnológica e a cidade tinha sete “dashboards” diferentes, muito sofisticados, comprados a diferentes fornecedores. No entanto, nenhum deles era de facto utilizado para tomar melhores decisões ou para melhorar os serviços públicos.

CW – Porque estava a cidade tão focada na tecnologia?

FB – A agenda das cidades inteligentes foi, num primeiro momento, liderada pela tecnologia, em particular por empresas tecnológicas e telecom. Barcelona é uma das cidades mais inteligentes, porque começou a colocar infra-estruturas há muito tempo, incluindo redes de fibra e sensores para recolher imensos dados.

Mas, só depois [da infra-estrutura colocada] é que a administração começava a perguntar “o que vamos fazer com esta informação? Que tipo de problemas podemos resolver com estes dados e como?”

CW – O que não funcionou na agenda anterior, centrada na tecnologia?

FB – Antes, não havia de facto uma estratégia na cidade. Quando se introduz uma nova revolução ou mudança tecnológica, a principal questão nunca deve ser a tecnologia: deve ser sempre a mudança organizacional, cultural e também de mindset. E também a estratégia. “Qual é a estratégia política, o que está a tentar resolver-se com essa tecnologia, quais são os principais problemas? E quais são as questões que se está a pôr à tecnologia?”

Caso contrário, poderá estar a perguntar-se “para que é que precisamos da cidade inteligente ou até mesmo da tecnologia? Porque estamos a colocar tecnologia na cidade?” O que acontece é que muitas cidades não fazem ideia.

Ao não ter uma “framework”, uma estratégia, acaba-se a dedicar o tempo e recursos a resolver problemas tecnológicos, relacionados com interoperacionalidade. Por exemplo, coloca-se uma rede de sensores no pavimento que não comunica com a rede de sensores da iluminação.

Quando se começa apenas pela tecnologia, acabamos com soluções proprietárias não-interoperacionais, como modelos de negócio insustentáveis. As cidades ficam reféns dos fornecedores, com contratos de licenciamento muito longos. E isto não funciona para a cidade.

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Fone: ComputerWorld



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