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Opinião: IBGE sob fogo cerrado

14 Mai 2017



Fábio Alves*

Em que estágio está a recuperação da economia brasileira? Ninguém hoje sabe responder a essa pergunta com certeza. As estimativas do mercado para o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, que será divulgado no dia 1.º de junho, apresentam grande dispersão, variando de um crescimento de 0,5% até expansão de 1,4%.

Os indicadores mais recentes de atividade econômica também não apontam uma direção definitiva: enquanto o Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br) de fevereiro deu um salto de 1,31% em comparação com janeiro, a produção industrial de março recuou 1,8% ante fevereiro.

A culpa para a falta de clareza sobre o ritmo da economia brasileira é, segundo vários analistas, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mudou a metodologia de cálculo das pesquisas mensais de comércio (PMC) e de serviços (PMS), alterando a amostra das empresas pesquisadas e a ponderação dos setores. Em razão dessa mudança, as vendas do varejo em janeiro, por exemplo, passaram de uma retração de 0,7% para um crescimento de 5,5%.

Além da dispersão das estimativas já publicadas, muitos economistas não divulgaram ainda suas projeções para o PIB do primeiro trimestre por não se sentirem confortáveis ao tentar conciliar as novas estatísticas do IBGE para comércio e serviços e a realidade traduzida por outros dados de atividade. Ou seja, o vigor mostrado pelas vendas do varejo em janeiro pode ter sido contaminado pela nova metodologia.

Uma das críticas mais recorrentes é a que o IBGE não divulgou os dados já com as novas estatísticas da PMC e PMS de igual mês de anos anteriores para que os economistas possam ter uma base de comparação. Muitos se referem a isso como o conceito de retropolação. O IBGE também foi criticado por não ter debatido e explicado a nova metodologia com maior antecedência já que a mudança dos resultados foi muito brusca. Isso aconteceu quando houve a mudança na metodologia do cálculo das contas nacionais em 2015, que ocasionou na revisão do PIB dos anos anteriores.

“O que a gente tem de evidências anedóticas e pelos resultados das empresas de varejo no primeiro trimestre nos leva a crer que, de fato, o varejo está mostrando uma reação, mas com a mudança da metodologia ficou difícil saber a magnitude dessa reação – está reagindo um, dois, três ou cinco? – por não termos mais uma base de comparação”, observou a economista-chefe e sócia da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro.

O diretor de pesquisas do IBGE, Roberto Olinto, esclareceu que a mudança da metodologia da PMC e PMS não exige uma retropolação porque não houve uma mudança de conceitos e classificações, como ocorreu com o item pesquisa e desenvolvimento, que passou a ser considerado um investimento e não como gasto comum nas contas nacionais. O que aconteceu agora foi apenas um encadeamento da série estatística pela mudança da amostragem e ponderação da PMC e PMS.

Assim, explicou o diretor do IBGE, a série dessas pesquisas não precisa ser recalculada, pois os valores de receitas já declarados pelas empresas de comércio e de serviços seguem os mesmos. “Não se retropola essas séries porque nada mudou em termos de conceito e classificação, pois é uma série só e também uma única variável, o valor das receitas”, disse Olinto. “Existem vários métodos para o encadeamento das séries, mas nenhum deles muda o passado, até porque não podemos alterar informações já declaradas.”

Como a mudança da PMC e PMS causou tanto ruído, o IBGE acabou promovendo em abril um seminário técnico apenas com economistas para tentar dirimir as dúvidas, especialmente sobre como a nova metodologia iria afetar o resultado do PIB. Quanto a isso, Olinto explicou que a PMC não é usada diretamente para estimação do PIB, mas serve apenas como parâmetro para medir o consumo das famílias.

“As séries ajustadas sazonalmente da PMC nunca foram usadas no cálculo das contas nacionais”, disse. Sobre o debate prévio necessário, Olinto disse que o IBGE havia divulgado com antecedência notas técnicas detalhando a mudança. Apesar das explicações no seminário, o barulho com a nova metodologia e a falta de clareza sobre o real desempenho da economia continua reverberando no mercado.

*Colunista do Broadcast


Fonte: O Estado de S. Paulo



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