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Opinião: “O que seria da Google sem a Internet e o GPS? Nada”

12 Jul 2017



Com a publicação do livro “The Entrepreneurial State” em 2013, a economista Mariana Mazzucato passou a ser uma voz incontornável nos debates em torno das questões da inovação e do crescimento. Professora na University College de Londres, esta economista, com cidadania italiana e norte-americana, tenta contrariar a ideia de um Estado que apenas tem o papel de regular um sector privado extremamente dinâmico, defendendo que muitos dos avanços tecnológicos mais importantes foram o resultado de uma acção mais ambiciosa do Estado. Ao PÚBLICO diz que não é pela sua pequena dimensão que Portugal não pode seguir uma estratégia em que o Estado é o grande dinamizador da inovação, sendo importante contudo definir à partida uma grande ideia sobre aquilo que se pretende fazer.

Nos bancos centrais, há algum espanto com o facto de, com uma política monetária tão expansionista a retoma estar a ser muito lenta. Qual é que acha que é a explicação?
Se se cria dinheiro, através das actuais políticas expansionistas, sem ao mesmo tempo criar oportunidades para o investimento das empresas, então o dinheiro acaba por ficar no sector bancário. É isso que está a acontecer. Para que se consiga gerar crescimento na economia real, em vez de apenas domar o mercado obrigacionista, é preciso ter uma política industrial e de inovação.

A maior parte dos países apresenta políticas de inovação?
O problema é que a forma com são definidas as estratégias de investimento e de inovação muitas vezes não têm qualquer efeito porque se assume à partida que as empresas querem sempre e que a única coisa de que precisam é de um pequeno incentivo. Não é assim. E tanto não é, que as empresas não têm investido. Há dados sobre isto a um nível macro, mas eu vejo-o a um nível micro também. Pelo contrário, o que acontece é um grande nível de financeirização, em que há muito dinheiro a ser acumulado.

Isso é algo que está acontecer agora ou é uma tendência já mais antiga?
Acho que ficou muito pior desde o final dos anos 90, o momento em que a tendência de financeirização se tornou mais clara. E também porque algumas coisas que antes eram ilegais, passaram entretanto a ser legais, como a autorização dada pelo regulador dos mercados de capitais dos EUA para que se aumentasse o nível de recompra de acções próprias. Mas o problema de base é que não se tem um sector público ambicioso. Isso é algo que se tornou notório desde os anos 80 quando os governos passaram a ficar mais preocupados com as falhas do Estado do que com as falhas do mercado e a consequência é que se deixa de ter liderança em novas áreas de inovação. Essa liderança do Estado foi notória ao nível das Tecnologias da Informação. Mas agora, não vemos isso para as políticas ambientais, excepto na China.

Só há inovação com a ajuda do Estado?
O que sabemos por aquilo que aprendemos com revoluções tecnológicas passadas, por exemplo no campo da nanotecnologia, biotecnologia e internet, é que apenas quando o sector público cria directamente – não indirectamente – investimentos e define de forma ambiciosa áreas para apostar, é que diferentes sectores ficam entusiasmados acerca das possibilidades. Se aquilo que é feito é apenas reduzir os impostos sobre os ganhos de capital ou introduzir créditos fiscais, o que se faz é apenas contribuir para aumentar os lucros.

Mas a ideia geral é que estamos actualmente numa era de grande inovação, vinda de empresas como a Google, por exemplo…
A questão não é a se temos ou não inovação. Mas a inovação, tal como o crescimento, tem uma taxa e uma direcção. Quando não é direccionada, quando não é parte de uma visão sobre para onde guiar a economia, o que acontece é que ficamos com muitos gadgets e com algumas empresas como a Google, Amazon ou Uber que aproveitam o facto de estarmos numa era em que impera a lógica de que “o vencedor fica com tudo”. Actualmente os governos pensam que têm de mostrar como são amigáveis em relação à Google e a outras empresas para mostrarem que são a favor do crescimento. Mas a verdade é que todas as grandes inovações recentes, à volta dos carros sem condutor ou tecnologia de armazenamento de bateria por exemplo, tudo isso veio do Estado. O que seria da Google sem a Internet e sem o GPS? Nada. O próprio motor de busca foi financiado por instituições públicas. O GPS, que é aquilo que é usado para fazerem os mapas, foi financiado pela Marinha norte-americana e pela NASA. Portanto, não é a Google que é inovadora, o que há é um ecossistema de inovação onde a Google é importante e até é uma das melhores empresas, porque reinvestem os seus lucros. Neste momento o sector público não está a liderar e, portanto, aquilo com que ficamos é com muita inovação dispersa, que não é verdadeiramente transformacional.

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Fonte: Público



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