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Via Láctea foi usada como base para construção de Brasília

29 Out 2017



Engenheiros tiveram de olhar para o céu para fazer Brasília crescer no chão do planalto central. As constelações da nata de estrelas que formam a Via Láctea foram fundamentais para que os trabalhadores tivessem certeza da marcação das coordenadas geográficas. Marcas que garantiriam que o Plano Piloto ficaria no lugar certo. Um pequeno deslize e, talvez, os eixos não se encontrassem. Ou então, o Lago Paranoá poderia invadir a cidade. E era assim. Após um dia de trabalho, cálculos e caminhadas no cerrado, depois de o sol se pôr, engenheiros deixavam outra vez as barracas de lona. Atulhados de equipamentos astronômicos, consultavam o céu para conferir no espaço as posições de cada ponto calculado no solo em relação aos astros.

Quem conta a história é o engenheiro e agrimensor Jethro Bello Torres, que, à época, ocupava o cargo de chefe da divisão de projetos e cálculos do Departamento de Estudos e projetos da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, mais conhecida como Novacap. Chefiado por Jofre Mozart Parada, ele foi responsável, também, por elaborar um documento com 125 páginas com a memória dos cálculos necessários para que a concepção da capital federal por Lucio Costa pudesse virar realidade. Batizado de Memória de cálculos da urbanização de Brasília, o levantamento, que está no Arquivo Público do DF, só foi descoberto pela equipe de pesquisadores após o órgão ser convidado para a 14ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

O Arquivo Público do DF criou um fundo documental com o nome de Jethro, com a catalogação dos documentos guardados pelo engenheiro. Além da memória de cálculos, o espaço dedicado aos papéis guarda diversas plantas e mapas da região, que revelam todo o trabalho científico-matemático necessário para garantir a cristalização do sonho de Juscelino Kubitschek. Alguns desses mapas mostram, inclusive, os mais de 100 pontos registrados tanto pela equipe, quanto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que serviram de base para o cálculo de onde ficaria o Plano Piloto. Acompanha esse material uma série de entrevistas dadas por Jethro, que, hoje, tem 89 anos e é o único integrante vivo da equipe de Lucio Costa.

Na gravação, Jethro mostra parte dos equipamentos utilizados para fazer as medições e os cálculos. Entre eles, uma bússola e um teodolito, que mostra aos engenheiros os graus de inclinação de um determinado terreno. A medição ajuda a calcular, por exemplo, o quanto de terra deve ser retirado de uma determinada área. “O que o GPS faz hoje, nós fazíamos utilizando as constelações que se apresentavam no céu de Brasília. Era a constelação de Carina, a constelação de Cruxis, que é o Cruzeiro do Sul, a constelação do Triângulo Autrale, que se apresentava, e outras que se utilizavam de acordo com os relatórios enviados pelos engenheiros do Rio de Janeiro (RJ)”, descreve.

Ponto a ponto

O Correio teve acesso à partes da gravação. Nelas, Jethro fala com eloquência dos cálculos, mapas, e trata as incursões noturnas em busca das estrelas como uma atividade quase pífia — pelo menos, comum para o grupo de homens indicados por Lucio Costa para tirar Brasília do papel. Todas as marcações e os cálculos feitos pelo grupo e depois comprovados pelas estrelas têm início em um ponto específico, cravado pelo IBGE em meados de 1954. O local em questão, batizado de Vértice nº 8, fica a poucos metros do Cruzeiro no Eixo Monumental, logo atrás do Memorial JK. Um marco, hoje laranja, no chão do planalto. Com base nele e em outras demarcações posteriores do instituto, foi possível definir todos os outros pontos.

“Então, nós fazíamos os pontos na terra, no planeta, detalhadamente, com as coordenadas geográficas, astronômicas. (...) Primeiro vieram os marcos da triangulação nacional. Sobre esses marcos, a empresa Geofoto partiu com uma malha de mais de 140 marcos. Malha quadrada. Mais ou menos plano retangular, por conta do terreno. Mas cada coordenada desses pontos era precisa, porque foram amarradas nas coordenadas (...) do IBGE e conferidas astronomicamente”, recorda. A empresa em questão era a primeira no país especializada em aerofotogramétrica, fotografias aéreas feitas de forma tal a revelar os graus de elevação e sublevação do solo, permitindo um mapeamento, para a época, muito preciso.

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Fonte: Correio Braziliense



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